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Dia Nacional da Libras: O que você provavelmente não sabe sobre essa língua e a luta por trás dela

Atualizado: 30 de abr.


24 de abril Dia Nacional da Libras


No dia 24 de abril, comemoramos a sanção da Lei 10.436/2002, a lei que reconhece a Libras como uma língua, um meio de comunicação legal entre pessoas surdas. Mas por trás dessa data, há décadas de movimento, resistência e transformação. Vai muito além de uma data comemorativa no calendário. Aqui, a gente conta melhor.



Nem toda pessoa surda fala Libras — e tudo bem


No Brasil, são cerca de 2,6 milhões de pessoas que não ouvem mesmo com uso de aparelhos auditivos, segundo o Censo 2022 do IBGE. Muitos adquiriram a perda auditiva tardiamente, como pessoas idosas.


Muitas dessas pessoas não utilizam a Libras como sua língua principal por inúmeros fatores como: falta de acesso à informação da possibilidade de usar uma língua de sinais, do preconceito enraizado no mundo médico de que a Libras possa atrasar o desenvolvimento, falta de oportunidade de contato direto com a língua ou por falta de conexão pessoal com a língua.



A história que poucos contam: quando as pessoas surdas "tomaram" a própria entidade


Em 1977, pessoas ouvintes fundaram a FENEIDA, a Federação Nacional de Educação e Integração do Deficiente Auditivo. Dez anos depois, em 1987, as próprias pessoas surdas reestruturaram a entidade e renomearam para FENEIS, a Federação Nacional de Educação e Integração do Surdo. Ana Regina e Souza Campello, Fernando de Miranda Valverde e Antônio Campos de Abreu foram os principais responsáveis surdos por essa mudança histórica.


Não foi somente uma mudança de nome; foi uma virada de modelo: do assistencialismo para a autonomia surda. É o tipo de história fundamental de se recordar quando falamos de protagonismo. A FENEIS foi crucial para a sanção da Lei da Libras e para diversas outras conquistas legais da comunidade, tais como: o Decreto 5.626/2005 (que dispõe sobre a difusão da Libras), a LBI (Lei Brasileira de Inclusão), as alterações na LDB que estabeleceram a modalidade de Educação Bilíngue de Surdos e a Lei do Intérprete de Libras.




Libras tem gramática própria e ela é fascinante


A Libras é uma língua completa e possui os 5 parâmetros fundamentais que estruturam a língua gramaticalmente. Esses são alguns exemplos:


  • Ordem sintática diferente: enquanto o português segue Sujeito-Verbo-Objeto, a Libras usa Sujeito-Objeto-Verbo. "Vou na casa de uma amiga hoje" vira, em Libras: “Hoje eu vai amiga casa”.

  • Uso do espaço tridimensional para marcar sujeitos e tempos verbais.

  • Expressões faciais como marcadores gramaticais, não apenas emoção, mas estrutura da frase.


Reconhecer essa complexidade é reconhecer a Libras como língua.



Quem está produzindo conhecimento sobre Libras? Pessoas surdas.


Celebrar a Libras sem citar pessoas autoras surdas é como falar de literatura brasileira sem citar Machado de Assis.


Dra. Gladis Perlin (2004) afirma que a identidade da pessoa surda não é ausência, é presença: um modo visual de estar no mundo. Mulher surda e uma das primeiras doutoras da América Latina, sua reflexão é essencial porque, para grande parte do mundo ouvinte, ainda predomina a ideia de falta. Perlin rompe com essa lógica ao afirmar que não se trata de um sentido a menos, mas de uma experiência completa, com outra forma de perceber e existir.


A Dra. Heloise Gripp, primeira doutora surda a defender tese em Libras na UFRJ (2024), marca outro ponto de virada: “Antes, surdos eram ‘informantes’ em pesquisas. Agora, somos autores.” E ela vai além: “As pesquisas linguísticas antes comparavam Libras com português. Agora, estudamos Libras por Libras.” Por muito tempo, pessoas surdas foram objeto de estudo em pesquisas médicas e linguísticas. A transição da FENEIDA para a FENEIS é um dos muitos exemplos de como esse lugar foi sendo ocupado e transformado pelo próprio povo surdo.



O que a Euforie-se tem a ver com tudo isso?


A Euforie-se é uma plataforma cultural surda, pensada e desenvolvida majoritariamente por pessoas surdas. Não por acaso: são elas que entendem suas próprias vivências, sabem o que realmente precisam e constroem iniciativas mais alinhadas, acessíveis e com verdadeiro impacto.


O conceito que guia a plataforma não é o de adaptação, mas o de adequação. Há uma diferença importante entre os dois: adaptar pressupõe que existe um padrão a seguir. Adequar reconhece que cada contexto tem suas próprias necessidades e que a cultura surda não precisa se encaixar em moldes ouvintes para existir com plenitude.


Em 2025, realizamos o primeiro Encontro Cultural da Euforie-se, com o lançamento do Livreto "Folclore Brasileiro Surdo", trazendo a perspectiva do povo surdo sobre o folclore brasileiro e fortalecendo a representatividade para crianças surdas. Um projeto que nasce da comunidade, para a comunidade, e que também abre espaço para pessoas ouvintes que querem se aproximar e compreender que existe uma língua, uma cultura e uma forma própria de vivência do povo surdo.


Sabemos que ainda existem poucos materiais didáticos acessíveis no Brasil. Por isso seguimos criando, produzindo e democratizando o acesso, fortalecendo identidade e cultura desde a infância.




Mas afinal, qual é o papel da pessoa ouvinte dentro desse contexto?


Ser aliado do povo surdo começa pelo conhecimento. Conhecer a história, reconhecer a língua como língua e entender que a cultura surda não é uma adaptação do mundo ouvinte, mas uma forma própria e completa de existir.


A pessoa ouvinte que se aproxima do povo surdo com genuína curiosidade e respeito já está dando um passo importante. Aprender Libras, consumir conteúdo produzido por pessoas surdas, valorizar iniciativas com protagonismo surdo e amplificar as vozes são formas concretas de transformar intenção em presença.


Mais do que isso, é fundamental conviver no mundo surdo. É nesse encontro cotidiano que se aprende de verdade, que se percebe nuances, práticas, vivências e formas de estar no mundo que não se encontram nos livros. E, nesse processo, é essencial respeitar a lugar da pessoa surda sinalizante, compreendendo que o protagonismo é do povo surdo. Ser aliado também é saber estar em retaguarda, apoiando sem ocupar o espaço que não é seu.


A Libras não seria nada sem as pessoas surdas. E a Euforie-se existe nesse encontro: entre culturas, entre línguas, entre pessoas que acreditam que um mundo mais acessível se constrói junto.


Não é apenas a celebração de uma língua. É o reconhecimento de uma conquista construída por gerações de pessoas surdas sinalizantes.


Feliz Dia Nacional da Libras! <0/



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